O conceito de ação em Hannah Arendt

Conclui há pouco trabalho de conclusão da disciplina Ética e Sociedade Contemporânea do curso de Filosofia Contemporânea da PUC-RJ. Abaixo, deixo  disponível a Introdução e caso alguém tenha interesse em ler o referido trabalho, posso enviá-lo assim que receber a avaliação final.

Introdução 

É surpreendente o número de escritos – livros, artigos, revistas, resenhas, lançamentos, etc. – que tem sido divulgados a respeito de Hannah Arendt nos anos recentes. Apenas no ano passado seus livros Sobre a Revolução e A Condição Humana foram relançados no Brasil; a revista O que nos faz pensar, do Departamento de Filosofia da PUC-RJ, publicou um número especial em sua homenagem; Eduardo Jardim lançou seu (aguardado) livro solo Hannah Arendt: Pensadora da Crise e de um Novo Início; o blog Hannah Arendt- Brasil colocou 10 posts no ar apenas em Janeiro deste ano contra uma média de 2 a 3 posts mensais em 2011; e teve início no Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ um grupo de pesquisas com o objetivo de discutir o tema Comunicação e Política. Isto para ficarmos apenas restritos ao cenário brasileiro!

Recentemente André Duarte[1], ao comentar a recepção de Hannah Arendt no Brasil, nos lembrou que, embora ela tivesse tido um reconhecimento público internacional com suas obras Origens do Totalitarismo e A Condição Humana, houve certa demora do meio acadêmico brasileiro para promover debates e discussões sobre sua obra. Esta ‘fama póstuma’ de Hannah Arendt talvez deva ser creditada ao fato de que, tal como o pensamento de Walter Benjamin, seu pensamento nunca esteve ‘à venda’.

Ele ressaltou também que Celso Lafer, no início dos anos 80, fez um trabalho excepcional de divulgação da obra de Hannah Arendt no Brasil, juntamente com Eduardo Jardim que desenvolveu na PUC-RJ um trabalho de fôlego no sentido de aprofundar os estudos sobre esta importante pensadora alemã.

Procurando explicar esta paradoxal situação, André Duarte salientou que o cenário do ambiente universitário brasileiro até 1989 era relativamente rígido com a ‘bandeira epistemológica’ fincada em solo marxista, rejeitando qualquer autor (a) que expressasse um pensamento diferente do legado de Karl Marx. Com a derrubada do Muro de Berlim naquele ano, as fronteiras entre direita e esquerda foram esboroadas e o pensamento marxista tradicional entrou em crise. A partir deste momento, abriu-se um campo fértil para autores como Hannah Arendt.

O recente movimento popular da Praça de Tahir no Egito, que completou um ano neste mês, somados aos gritos do indignados na Espanha, aos protestos do Occupy Wall Street e outros locais pelo resto do mundo, configuram um cenário sócio-político onde os conceitos tradicionais de representação política, de democracia representativa, de participação popular, de eleições pelo voto, etc. devem ser completamente (re)discutidos e (re)vistos sob pena de se tornarem obsoletos.

É certo que nenhuma destas situações pode ser comparadas ao totalitarismo, fenômeno que emergiu no início do século XX e que teve consequências humanas e humanitárias catastróficas, com milhões de vidas ceifadas, tanto na sua vertente nazista quanto na sua vertente comunista.

A similaridade entre estes dois contextos reside no fato de que eles exigem abordagens diferentes e inovadoras para explicar a emergência de massas humanas que expõem sua insatisfação com os rumos da política e com as atitudes e comportamentos dos políticos profissionais. Ditaduras políticas assentadas durante anos e anos a fio no Egito, no Iêmen, na Síria, na Líbia, etc. foram e estão sendo derrubadas como frágeis castelos de areia. Governos europeus não mais conseguem conter os movimentos de rebeldia de jovens que procuram canais novos de manifestação de sua insatisfação e que vão sendo gradativamente substituídos por novos governantes na Espanha, na Itália, na Grécia, etc., sem conseguir solucionar os impasses hoje vividos por estes países.

Em resumo, Davos pede um novo capitalismo e em Porto Alegre o Fórum Social Mundial, seção Brasil, discute qual é o caráter do novo mundo possível!

É neste cenário que o pensamento de Hannah Arendt se valoriza, aponta novos caminhos, propõe senão uma solução concreta mas a possibilidade de um novo início, de um começo original que permita o debate e a discussão num espaço público iluminado por idéias que fertilizem o ‘pensamento sem corrimão’, como quer Hannah Arendt.

O presente trabalho está dividido em três partes. Na primeira, registramos os principais momentos da vida de Hannah Arendt através de uma sumária biografia pois é sabido que não se pode entender perfeitamente a obra desta pensadora sem conhecer sua vida pessoal; muitos dos seus escritos são respostas às suas experiências cotidianas seja na Europa seja nos Estados Unidos para onde migrou no início da década de 40. A segunda parte é um estudo sobre o conceito de ação, categoria central em seu pensamento político e a grande contribuição de Hannah Arendt para a Filosofia Política. E finalmente, nas Conclusões, um rápido resumo de seu pensamento para se entender o cenário contemporâneo e a sua importância como ‘pensadora da crise e de um novo início’


[1] André Duarte – Palestra no lançamento da revista O que nos faz pensar, revista do Depto. De Filosofia da PUC-RJ, no. 29

Advertisements
Posted in Uncategorized | 27 Comments

Arte Contemporânea: conceitos e características principais

A Introdução abaixo refere-se ao trabalho de conclusão da disciplina Estética e Arte Contemporânea do curso de especialização em Filosofia Contemporânea da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Caso alguém tenha interesse em conhecer outras partes deste trabalho, poderei enviá-lo na íntegra assim que receber a avaliação final do referido.

INTRODUÇÃO

De todos os temas, autores e assuntos apresentados e discutidos ao longo da disciplina Estética e Arte Contemporânea, esta última despertou meu particular interesse com o propósito de aprofundar e compreender a essência deste movimento nas artes o qual, muitas vezes, á caracterizado como não arte.

As propostas de Danto sobre o fim da arte, a arte contemporânea como plural, tolerante e livre, a definição de que tudo pode ser arte e que todos podemos ser artistas, o uso de meios tecnológicos e de objetos do dia a dia na obra de arte, a passagem do modernismo para a arte contemporânea são temas e assuntos que desafiam minha compreensão de arte, talvez em grande parte por estar condicionado a um tipo de arte que vigorou durante seis séculos no Ocidente; para mim, a arte sempre significou a representação da realidade exterior, mesmo que muitas vezes criando certas distorções e ilusões.

Cabe também mencionar que recentemente tomei conhecimento mais de perto dos trabalhos de uma artista contemporânea, Mariana Manhães, jovem promissora que tem exposto, individual e coletivamente, suas obras em locais de grande prestígio como o Centro Cultural Banco do Brasil, Oi Futuro, Museus de Arte Contemporânea de Niterói, etc. “Aplicar” os conceitos de arte contemporânea de um autor como Danto à obra de Mariana Manhães é o meu objetivo final com este trabalho de conclusão da disciplina Estética e Arte Contemporânea.

Este trabalho está dividido em basicamente três partes: na primeira, procurei expor e compreender os conceitos de Danto sobre arte contemporânea, arte moderna, fim da arte, etc. Na segunda parte, tracei uma breve biografia de Mariana Manhães destacando suas principais exposições e premiações recebidas ao longo de sua breve e meteórica carreira. Para ilustrar melhor o trabalho de Mariana, acrescentei um panorama geral de suas duas mais recentes obras: Thesethose e Dentre, instalações montadas nos Estados Unidos em 2011 e no Centro Cultural Banco do Brasil em 2010, respectivamente. E finalmente, no final deste trabalho, reproduzo a entrevista feita por email com Mariana Manhães, a partir de um questionário baseado em conceitos discutidos ao longo do curso.

Posted in Uncategorized | 37 Comments

Ainda 1968 …

Não sei se para a minha geração, mas 1968 é um ano emblemático na cronologia do século XX. A partir dele, tudo mudou: valores, conceitos, princípios, estilos de vida,  modos de pensar, etc. Tão famoso que virou até nome de livro: 1968 – O ano que não terminou, do Zuenir Ventura. Na política, seu efeito foi devastador no campo das relações de autoridade. Subversão completa. Paulo Ricouer, escritor francês, nos ensina: “Permaneço muito perplexo face a 68. Porque pode se hesitar entre duas leituras extremas: não aconteceu nada, foi uma festa da palavra, efêmera. Ou então, temos uma lenta subversão de todas as relacões de autoridade, de todas as relacões hierárquicas, e muito frequentemente para melhor. (…) Diria que hoje mais ninguém exerce a autoridade como ela era exercida antes de 68. É preciso consultar, é preciso discutir muito tempo, é preciso negociar particularmente numa sociedade que permanece muito hierárquica como a sociedade francesa” (O único e o singular, Editora Unesp, UEPA, 2002)

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Ruth Cardoso, Fragmentos de uma vida

Max Weber, sociólogo alemão, em um texto sobre a vocação do intelectual ressaltou a integridade como o valor supremo daqueles que se dedicam a este ofício. Ruth Cardoso realizou plenamente, em sua vida pessoal e profissional, este valor. Desde sua infância … Continue reading

Gallery | 3 Comments

Golpe de Estado: fantasia ou realidade?

Sociólogo de formação e curioso das coisas da política, além de leitor contumaz de Hannah Arendt, para quem a precisão e a distinção de conceitos sempre foi fundamental, surpreende-me, no atual quadro político brasileiro o uso indevido e abusivo do conceito de golpe de estado.

Inspirado em um artigo escrito pelo meu amigo Marco Aurélio Nogueira em seu blog, decidi fazer uma rápida e sucinta revisão bibliográfica do conceito de Golpe de Estado. Deixo claro, desde já, minha total responsabilidade por tal empreitada.

Assim, consultei o verbete Golpe de Estado em dois dicionários de política que tinha à mão para compreender melhor o significado deste conceito. O primeiro texto consultado foi o Dicionário de Política, de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, volume I, Editora da UnB. O segundo, o Dicionário do pensamento social do século XX, editado por William Outhwaite e Tom Bottomore, da Zahar Editora.

Analisando a evolução do significado do conceito de Golpe de Estado, no Dicionário de Política, podemos verificar que, embora haja diferenças importantes entre este fenômeno nos nossos dias quando comparado com séculos atrás, há um traço de união invariável: “(…) o Golpe de Estado é um ato realizado por órgãos do próprio Estado” (pag.545)

Parece-me claro que, no caso brasileiro atual, quando o Governo usa a acusação de Golpe de Estado para qualificar o ato de impedimento contra a Presidente Dilma, trata-se de um uso abusivo e despropositado que não encontra sustentação na moderna definição de Golpe de Estado. Se há atores por trás do Golpe de Estado (?) atualmente em curso no Brasil temos que mencionar a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal e os movimentos espontâneos convocados pelas redes sociais!

Em outro trecho do Dicionário de Política, ao mencionar os atores que perpetram usualmente o Golpe de Estado, temos à pag.546: “Na grande maioria dos casos, o Golpe de Estado moderno consiste em apoderar-se, por parte de um grupo de militares ou das forças armadas em seu conjunto, dos órgãos e das atribuições do poder político…”

Os casos dos militares brasileiros em 64, das forças armadas chilenas em 73 e de Hugo Chaves na Venezuela se enquadram plenamente nesta definição. Tenho a impressão que, no momento atual, as forças armadas brasileiras estão mantendo uma posição de neutralidade frente à situação política atual, o que é de todo modo louvável pois sabemos todos das consequências trágicas vividas pela intervenção militar em 64.

Indo para o Dicionário do Pensamento Social do século XX, encontramos a definição de Golpe de Estado como sendo “(…) uma mudança de governo efetuada pelos detentores do poder governamental em desafio à constituição legal do estado” (pag.341)

Mais uma vez, como mostrei acima, os atores sociais que vimos atuando no Golpe de Estado (?) na visão do Governo não fazem parte do aparato governamental e nem sequer detém posições de poder executivo.

Mais interessante ainda é como Outhwaite & Bottomore se referem ao modo de execução do Golpe de Estado: “A segunda característica (do Golpe de Estado-JRC) reside na sua forma de execução: preparado e executado por um pequeno número de pessoas, um golpe de estado exige acima de tudo segredo e ação rápida” (pag.341)

Convenhamos que, seja pelo número de atores sociais favoráveis ao  impedimento da Presidente Dilma, seja pela imensa visibilidade e publicidade deste processo, segredo e ação rápida não são procedimentos que estão sendo adotados por aqueles que desejam a saída da Presidente Dilma.

Creio, portanto, ter demonstrado claramente, sustentado por definições muito precisas, que não faz sentido qualificar o processo de impedimento da Presidente Dilma como golpe de Estado e que o procedimento adotado pelo Governo nada mais é uma tentativa de manipular de modo fantasioso e ilusório a chamada opinião pública.

Fico, finalmente, com o ponto de vista do decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Celso de Melo, que, ao comentar a possibilidade da Presidente Dilma denunciar na ONU o andamento de golpe contra ela, afirmou ser este ato um “grave equívoco”, caso venha a se concretizar.

 

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Gestão de carreiras

CdO Gestão de carreira 2014

Posted in Uncategorized | Leave a comment

As cotas e as ações afirmativas

Políticas de cotas e ações afirmativas: o que e quem está sendo afirmado?

A mentalidade dominante, através dos meios de comunicação de massas, sempre procura inculcar nas pessoas concepções do “verdadeiro, do belo, do justo” sem se perguntar sobre o real significado das palavras que manipulam ao sabor dos poderosos de plantão.

É o que ocorre no momento com a discussão da chamada política de cotas para pessoas carentes – de baixa renda, negros e portadoras de deficiências físicas – na universidade brasileira.

Na corrente das “ações afirmativas” – conjunto de políticas e mecanismos legais que visam reduzir a discriminação social e econômica de minorias em geral –, práticas diretamente importadas dos Estados Unidos da América, a política de cotas foi primeiramente instituída pela lei no. 3.708, de novembro de 2001, aprovada pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

Com o objetivo de reduzir as desigualdades sociais e econômicas na sociedade brasileira, esta lei estabelece cotas para acesso nos cursos de graduação das universidades públicas estaduais para estudantes oriundos da rede pública de ensino, para negros e portadores de deficiências físicas.

Não vou aqui entrar na dança das controvérsias geradas por esta lei tantos são os argumentos levantados pelos que a defendem e pelos que a rejeitam. Nem quero me deixar enredar pelas discussões acadêmicas sobre o conceito sociológico ou antropológico de raça. Resisto também `a tentação de discutir a questão nos cânones do “ politicamente correto”.

O meu ponto de partida é o que nos ensina a tradição do magistério da Igreja: a tão propalada divisão dos homens em negros, índios, brancos, amarelos, etc. nada mais é do que uma construção humana e não encontra respaldo na maneira como o cristianismo trata as diferenças entre os homens. Para a Igreja, a humanidade é una e indivisível e cada homem carrega dentro de si as mais elementares exigências de felicidade, de bondade, de justiça, de verdade, de beleza. E a realização plena destas exigências aconteceu (e acontece hoje no dia a dia de cada um de nós) graças `a irrupção na história humana da figura excepcional de Jesus de Nazaré que, exemplarmente, abraçou indistintamente toda a humanidade através de seus amigos  João, André, Tiago, Pedro, Madalena, Marta, Zaqueu e muitos outros. Prostitutas, cobradores de impostos, perseguidores de cristãos, intelectuais, paralíticos, doentes; enfim, toda sorte de homens e mulheres que se fizeram amigos de Cristo, não por suas características físicas ou étnicas distintas mas por um maravilhamento e um estupor diante de uma Presença excepcional que tinha sempre palavras simples para explicar-lhes o significado da existência de cada um deles. Em resumo, como Paulo nos fala em sua epístola aos romanos: diante de Deus, não há distinção de pessoas.

Portanto, partindo destas considerações, fica claro para mim que o problema da existência de cotas para privilegiar qualquer categoria social ou étnica constitui-se num falso problema, sem entrar em considerações a respeito do mérito deste tipo de política para resolver os reais problemas levantados pela desigualdade econômica e social.

Com base na minha experiência de pertencer a um povo que foi constituído pela intervenção de Deus ao longo da história humana, proponho que, ao invés de “ações afirmativas” que privilegiem as minorias possamos falar em ações afirmativas (sem aspas) que resgatem a dignidade do humano, que re-estabeleçam a relação (infelizmente perdida, desde o advento do Iluminismo!) do homem com o Mistério, que reponham o desejo de Infinito do homem no centro de suas preocupações, que redefinam o verdadeiro significado da existência do homem, que despertem no homem a atenção séria para o que realmente vale a pena, que rejeitem a fragmentação do eu a que estamos cotidianamente expostos.

Quer me parecer que a grande questão que se coloca nesta discussão nem sempre frutífera das “ações afirmativas” (com aspas) e da política de cotas está fora de lugar e de tempo: busca-se dividir o que é único (o homem, a humanidade), destruindo sua unidade e radicalizando o diverso. As conseqüências políticas de tal artimanha dos poderosos são bem conhecidas de todos!

José Roberto Cosmo

Jacarepaguá, Rio de Janeiro.

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Sobre as eleições europeias de 2014

Existe uma saída para a Europa?

As últimas eleições europeias ocorridas em 28 países daquele continente para o preenchimento das 751 cadeiras do Parlamento provocou um verdadeiro “terremoto político”, nas palavras do Primeiro Ministro francês, Manuel Valls.

De um modo geral, os partidos nacionalistas e os eurocéticos levaram a melhor empunhando as bandeiras contra a imigração e contra a integração da comunidade europeia, especialmente na França e na Grã Bretanha, dois dos principais países da Europa. Os partidos de extrema direita e da extrema esquerda mais que dobraram suas cadeiras no Parlamento europeu. O baixo comparecimento dos eleitores foi um dos menores registrados em eleições gerais resultando em 43,1% de votantes, o que de per si já é um importante indicador de insatisfação política face aos mecanismos tradicionais de representação popular. Documento público de CL divulgado recentemente por ocasião das eleições para o Parlamento europeu menciona uma pesquisa a qual indica que 70% da população acha que as estruturas europeias são inadequadas face às exigências de sua vida pessoal e social.

Na França, Marine Le Pen, principal líder da Frente Nacional, partido de extrema direita, obteve, pela primeira vez 25% dos votos, com um discurso xenófobo expresso na bandeira que sustentou sua campanha: “Não à Bruxelas, Sim à França”. Em sequência à sua vitória, seu partido pediu a dissolução da Assembleia Legislativa francesa e a convocação de novas eleições, além de reivindicar um referendo sobre a saída da França da União Europeia. A UMP, partido conservador, e o Partido Socialista, do atual presidente François Hollande, com 20,3% e 14% dos votos respectivamente ficaram em segundo e terceiro lugares. Em reação a esta inusitada situação política, o Primeiro Ministro francês, Manuel Valls já anunciou uma redução de impostos na economia.

Na Grã Bretanha, o UKIP (sigla inglesa do Partido da Independência do Reino Unido), de Nigel Farage derrotou os tradicionais Partido Trabalhista e o Partido Conservador de David Cameron. Durante sua campanha, Nigel Farage pediu a saída imediata da Grã Bretanha do bloco europeu. Após sua derrota, o Primeiro Ministro inglês, David Cameron, já acenou com um plebiscito em 2017 para que a população inglesa decida pela permanência ou não de seu país na União Europeia.

Na Alemanha, Itália e Espanha os partidos de centro pró-Europa continuaram firmes em suas posições. Na Alemanha, maior país membro da União Europeia, o partido de Angela Merkel, Primeira Ministra, conquistou o maior número de cadeiras no Parlamento. Matteo Renzi, Primeiro Ministro italiano, obteve uma vitória significativa pois seu partido conquistou 41% dos votos pela integração ao bloco europeu. Na Itália, o Movimento 5 Estrelas, de Beppe Grilo, ficou em segundo lugar enquanto a Força Itália, do ex-Primeiro Ministro Silvio Berlusconi, ficou em terceiro lugar.

Na Grécia, o Syriza, movimento radical de esquerda e contra a austeridade imposta pela União Europeia ao país, liderado por Alexis Tsipras foi o vencedor destas eleições embora o Primeiro Ministro, Antonio Samaras, não tenha sido atingido significativamente. O Governo grego conseguiu uma pequena maioria com assento no Parlamento Europeu. Na Dinamarca, os partidos alinhados à extrema direita racista com propostas antiimigração e antissemitas. Na Holanda, o Partido para a Liberdade, eurocético e antiislâmico ficou empatado no lugar atrás do partido de centro pró-europeu.

Diante deste quadro político posto pelas eleições europeias, quais seriam as causas da ascensão de movimentos político-partidários de extrema direita e de extrema esquerda? Quais foram os fatores que fizeram com que a Europa fosse varrida por ventos intensos de radicalidade política a ponto de se questionar abertamente a integração dos países que compõem a União Europeia? Quais as causas da insatisfação dos eleitores europeus em relação à integração dos seus países à União Europeia?

Pelas notícias trazidas por analistas políticos e jornalistas que cobriram as últimas eleições para o Parlamento Europeu as principais causas que teriam contribuído para esta situação dizem respeito, em grande parte, às políticas econômicas adotadas pela maioria dos países para suplantar a crise financeira de 2008, crise que teve seu início nos Estados Unidos mas que se alastrou por todo o mundo e atingindo em cheio os países europeus. Tais medidas dizem respeito às políticas de austeridade que cortaram postos de trabalho, salários, aposentadorias e investimentos governamentais mergulhando vários países em crise econômica profunda com níveis de desemprego assustadores para os padrões da União Europeia, chegando em alguns casos a 20% de desempregados. Isto afetou fortemente o desempenho dos países da comunidade europeia sendo que, nos últimos anos, o crescimento econômico foi medíocre para não dizer pífio, insuficiente para manter o padrão de vida da população da Europa acostumada a um estilo de vida que teve por base o chamado welfare state, isto é, o estado do bem estar social.

Outra causa aventada pelos analistas políticos e jornalistas refere-se à questão das imigrações de populações vindas da África e de ex-colônias europeias, professando em muitos casos o Islamismo, e que foram para a Europa em busca de empregos e salários que lhes permitissem um nível de vida mais digno do que em suas regiões de origem. Políticas mais rígidas contra a imigração foram adotadas por alguns países recentemente sendo a Suíça o caso mais exemplar. O ressurgimento de movimentos racistas e antissemitas tem ocupado as páginas dos principais jornais europeus sempre destacando a oposição de boa parte da população contra as imigrações que tomaram conta da Europa nas últimas décadas.

Mas seriam apenas estas causas mais imediatas as responsáveis pela eclosão deste verdadeiro “terremoto político” a que aludiu o Primeiro Ministro francês? Ou causas mais profundas estariam provocando um movimento subterrâneo na história da Europa de modo a abalar seus alicerces?

Acredito que se torna necessário uma análise mais profunda do que ocorre na Europa atualmente que não leve em conta apenas fatores econômicos para a explicação da situação europeia. Temos de ir às raízes da crise o que significa, em última análise, considerar todos os fatores em jogo e não só os fatores de ordem material, como bem nos ensinou dom Giussani. Trata-se de um passo fundamental para reencontrar uma nova consciência que permita dar conta da grave situação em que se encontra a Europa.

A Primeira Ministra da Alemanha, Angela Merkel, tocou num ponto que merece ser mais bem entendido. Ela nos diz: “Vai se tratar mais de estimular políticas que ecoem nas pessoas”.  A questão que ela coloca inverte o problema: trata-se, a meu ver, de estimular as pessoas, com suas necessidades mais elementares, a se fazerem mais presentes no espaço público tornando-as participantes na construção das políticas públicas e não de colocar as pessoas como receptoras de políticas que, na maioria das vezes, nada tem a ver com suas necessidades de verdade, de justiça, de beleza e de bondade. É preciso ampliar o diálogo com todos os cidadãos de modo a se resgatar a “centralidade, unicidade e a sacralidade” de cada pessoa, como tão bem reconhece o documento divulgado por CL frente às eleições europeias.

Também Manuel Valls, Primeiro Ministro da França, diante da hostilidade em relação aos imigrantes fez uma afirmação que nos leva a refletir de modo diverso. Ele afirmou que “a rejeição dos outro não é a imagem da França”. Tem razão em parte o Primeiro Ministro: mas, qual é a natureza deste “outro” a que ele se refere? Para nós, o outro tem um significado mais profundo do que o entendido por Manuel Valls. E, permitam-me recorrer a pe. Carron que, frequentemente, tem nos ensinado que devemos entender o outro como um bem que nos é dado para redescobrir e recuperar o humano, aquilo que é essencial ao indivíduo e à sociedade. O Papa Francisco também tem enfatizado a necessidade de ficarmos mais atentos ao outro gerando uma atenção amiga. Ele nos diz: “O nosso compromisso não consiste exclusivamente em ações ou em programas de promoção e assistência; aquilo que o Espírito põe em movimento não é um excesso de ativismo, mas primariamente uma atenção prestada ao outro “considerando-o como um só consigo mesmo”. Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, desejo de procurar efetivamente o seu bem”. (Evangelii Gaudium, 199)

Isto nos chama a atenção para a responsabilidade de cada pessoa para a construção de uma sociedade que pratique, cada vez mais, uma subsidiariedade real através de organizações sociais intermediárias com o objetivo de construir obras que o Estado, devido à crise atual, não tem condições de suprir à população

Como afirma o documento de CL sobre as últimas eleições: ”Uma Europa que percebesse isto não tenderia a fechar-se à imigração; não poria em prática somente a austeridade mas também a solidariedade na economia; não se fecharia em nacionalismos irrealistas e anti-históricos; não promoveria uma legislação resolvida a desfazer todos os vínculos cultivando a obsessão pelos novos direitos individuais; não avalizaria a hostilidade às fés e,em particular, à fé cristã (traindo precisamente aquilo que, na história, edificou e fez grande a Europa)”.

Diante destas reflexões, que ensinamentos podemos extrair da situação posta pelas eleições europeias tendo em vista a proximidade das eleições que serão realizadas em nosso país em outubro próximo?

A dignidade da pessoa humana é um ponto fundamental para que possamos refletir a respeito das relações do Estado brasileiro com a sociedade civil, na medida em que políticas vindas do alto e impostas à população não garantem, necessariamente, a satisfação das necessidades mais elementares tais como o desejo de justiça, de beleza, de bondade que constituem cada um de nós; a afirmação do eu diante da realidade que se nos apresenta é um desafio constante que deve ser enfrentado através de juízos sobre as diversas situações políticos-eleitorais com as quais conviveremos em nossos ambientes; a ampliação de um diálogo sincero com todos aqueles com os quais nos encontraremos para debater a respeito dos rumos que queremos para nosso país; a divulgação de nossas obras que representam um exercício real de subsidiariedade efetiva na medida em que garantem serviços que o combalido Estado brasileiro não consegue realizar.

Estão colocados, portanto, os desafios que exigirão da parte de cada um de nós um posicionamento claro e razoável que leve em conta todos os fatores em jogo, incluindo, sem dúvida, a contribuição da tradição cristã para o enfrentamento dos graves problemas que afligem não só o mundo mas particularmente nosso país.

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Sobre a democracia – apresentação feita no Rio Encontros pela comemoração dos 30 anos do movimento Comunhão e Libertação no Brasil

RIO ENCONTROS – 30 ANOS DE CL NO RIO

Inicialmente, gostaria de parabenizar os organizadores do Rio Encontros em comemoração aos 30 anos do movimento Comunhão e Libertação no Rio de Janeiro. É com alegria muito grande que participo deste evento que celebra a chegada de dom Filippo e de padre Giuliano em nossa cidade e que, para mim, teve um significado muito especial de retorno à vida da Igreja Católica já que havia me afastado dela a partir do momento em que ingressei no curso de Ciências Sociais em 1967.

Um agradecimento especial é dirigido ao Carlinhos que pessoalmente me convidou para participar desta mesa para um diálogo sobre política junto com dom Filippo, amigo muito querido e que teve importante papel em momentos decisivos de minha vida desde que encontrei o movimento aqui no Rio de Janeiro. Muito me honra dialogar com dom Filippo que foi o responsável pela orientação de políticos católicos durante sua função como bispo auxiliar do Rio de Janeiro e como bispo de Petrópolis.

Na comemoração dos 15 anos do movimento CL no Rio de Janeiro, em meu testemunho, eu dizia que uma das dimensões do CL que para mim era apaixonante e que me era pessoalmente cara dizia respeito à importância atribuída pelo movimento ao fato educativo e cultural. Hoje, nesta celebração dos 30 anos do movimento no Rio de Janeiro eu quero acrescentar que a dimensão da política, conforme a proposta do movimento, igualmente me fascina e me é muito cara especialmente porque, nesta esfera, CL me educou para o senso crítico para que eu possa no cotidiano descobrir a minha dignidade como homem e a verdadeira face da Igreja, procurando identificar na dimensão política a expressão e a comunicação da autêntica experiência humana.

Minha apresentação será dividida em duas partes distintas mas complementares. Inicialmente, farei um breve comentário sobre os afrescos de Ambrogio Lorenzetti sobre o Bom Governo e o Mau Governo e os efeitos do Bom Governo sobre a cidade e o campo, ponto de partida do diálogo sobre a política. Estas observações não pretendem ser exaustivas, sendo apenas alguns destaques pontuais para sublinhar algumas noções relativas à dimensão política, objeto deste diálogo.

Em seguida, com base em textos de dom Giussani datados do final da década de 80, procurarei expor o pensamento do fundador de CL a respeito de algumas categorias centrais da política. A partir do pensamento de dom Giussani poderemos observar a originalidade de sua experiência no terreno político e como determinadas formas de pensar atualmente a política encontram nele uma abordagem diferente da mentalidade dominante que impera nos dias atuais.

Comecemos, portanto, com Lorenzetti. Antes de tudo, é preciso observar que foi uma preocupação dominante da Baixa Idade Média a educação de seus príncipes. Muitas vezes, os escritos políticos desta fase histórica tem a forma de uma espécie de exortação moral e toda uma literatura política foi escrita voltada para a educação ética do governante.

Como nos diz um autor especialista neste período: “A construção da imagem do rei sábio nos séculos XIII-XIV fez parte do topos real. Através de uma educação virtuosa, da reflexão ética interior, o rei deveria ser o espelho de uma vida virtuosa, no qual seus súditos pudessem contemplar um modelo de perfeição a conduzi-los ao reino celeste”.

Lorenzetti, através de seu afresco, estava inserido dentro deste contexto histórico cujo ethos dominante caracterizou-se pela oposição entre o bom e o mau governo. De um modo geral, este afresco representa, tanto para os governantes quantos para os demais frequentadores do Palácio Comunal de Siena, as virtudes necessárias ao bom governo e os vícios a serem evitados.

Num afresco temos a alegoria do Bom Governo. Nos outros dois, o Mau Governo – tirano – e os efeitos sociais do bom governo no campo e na cidade.

O Bom Governo é representado por um rei barbudo, sábio, virtuoso simbolizando tanto a cidade de Siena quanto o bem estar público. Seis virtudes estão representadas no Bom Governo. São elas a Magnanimidade, a Temperança, a Justiça, a Paz, a Fortaleza e a Prudência. A justiça também é representada neste afresco e sua importância para o Bom Governo pode ser avaliada por um poema que explica o sentido da obra para o visitante do Palácio Comunal: “Onde reina esta santa virtude (a justiça) a pluralidade das almas é induzida à unidade, as que, assim reunidas, dão-se ao bem comum por senhor”. O bem público deve anteceder ao bem privado, em outras palavras.

O Mau Governo é representado por uma figura demoníaca, maléfica, sendo a própria encarnação do Diabo.  Os vícios são parte intrínseca do tirano e são eles a Crueldade, a Traição, a Maldade, o Roubo, a Divisão e a Guerra. Além disso, são retratadas neste afresco a Avareza, a Soberba, a Vanglória, que simbolizam  a confusão entre o público e o privado. No dizer de um autor: “O tirano ignora a justiça, usando-a em seu próprio proveito – a aplicação da Justiça é o que distingue o bom do mau governo”.

No prolongamento do afresco sobre o Bom Governo, Lorenzetti descreve os efeitos do governo justo sobre a cidade. Estes efeitos podem ser vistos através do trabalho, do lazer, das construções, da sala de aula com o professor, da sapataria. Além disso, donzelas dançando representam uma ocasião de festa. Um autor italiano assim resume os efeitos do bom governo sobre a cidade: ”Trabalho e jogos, riqueza e beleza, harmonia e bem estar da comunidade: é o ideal do bom governo urbano, pelo príncipe”.

Os efeitos do Bom Governo sobre o campo são também representados por Lorenzetti. A alegoria da segurança domina a cena. Trabalhadores camponeses dignos executam suas funções ordeiramente com domínio total sobre a natureza. Todo o povo trabalha em paz em seus afazeres cotidianos.

A partir deste rápido e sucinto olhar sobre a obra de Lorenzetti e ao refletir sobre a questão da política para este encontro, decidi voltar a ler os textos de dom Giussani sobre esta dimensão documentada em seu livro o Eu, o poder, as obras. Neste texto, especialmente na parte sobre o poder, dom Giussani enuncia seu pensamento a respeito das coisas da política a partir dos ensinamentos da tradição do magistério da Igreja, consubstanciadas em sua Doutrina Social. Acredito que voltar a este livro é fundamental para entender o que nos ensina dom Giussani sobre a política e vocês poderão observar muitos pontos de contato com o afresco de Lorenzetti.

Em 1987, em Assago dom Giussani pronunciou uma palestra num encontro oficial da Democracia Cristã com o título Senso religioso, obras e política, palestra esta que provocou muitas polêmicas pelo modo particular de sua abordagem.

A primeira e fundamental lição de dom Giussani sobre a política é afirmar clara e taxativamente que o homem deve ser o centro da atividade política o que, segundo me parece, contradiz o entendimento dos políticos profissionais que, na maioria das vezes, estão apenas preocupados em defender seus interesses pessoais e corporativos. Diz-nos dom Giussani: “A política, enquanto forma completa de cultura, só pode ter como preocupação fundamental o homem”.

Na atividade política, o poder é uma dimensão central. Convém aqui deixar claro que, diferentemente da concepção do senso comum, o poder não é necessariamente uma atividade suja e que deve ser evitado. Dom Giussani nos diz que diante dos valores que nos são apresentados, o homem tem de lidar com o poder e recorre a uma definição de Romano Guardini segundo o qual o poder é definido como “o delineamento do objetivo comum e organização das coisas para sua obtenção”. Fica claro, portanto, que o exercício do poder não é uma atividade que nós, católicos, devemos menosprezar e deixar de lado pois nossas demandas legítimas sobre a liberdade religiosa, a liberdade de educar nossos filhos segundo nossa fé, o direito à vida desde a fecundação, etc. precisam ser colocadas publicamente e, para enfrentar estas e outras questões importantes, temos de lidar com o poder de maneira organizada.

Podemos nos perguntar então sobre, afinal, o que determina o poder? Aqui, dom Giussani, nos coloca diante de um dilema e nos afirma: “Ora, o poder ou é determinado pela vontade de servir à criatura de Deus no seu desenvolvimento dinâmico, isto é, servir ao homem, à cultura e à práxis que dela deriva ou, então, tende a reduzir a realidade humana ao seu próprio objetivo.” Fica explícita a crítica de dom Giussani à abordagem reducionista da concepção de poder que entende a realidade como fruto de um projeto humano que graças, única e exclusivamente, ao esforço do homem pode se realizar através de ideologias que propõem a transformação do mundo e a salvação do homem sem levar em conta seu protagonismo. Nesta abordagem reducionista do poder, estamos no reino do ‘divo’, o homem capaz que conta com suas próprias forças. É na própria força que se deve esperar, é na própria energia que se aposta, conforme nos diz dom Giussani em A consciência religiosa do homem moderno.

Outro ensinamento importante que nos legou dom Giussani a partir de Assago diz respeito às relações entre a sociedade e o Estado, questão que atualmente comporta diferentes abordagens. É comum nos depararmos hoje com inúmeras tentativas do Estado em se imiscuir em atividades não só econômicas como também em atividades privadas como na área da educação dos filhos, do planejamento familiar, da escolha da moradia, entre outras.

É conhecida a insistência de dom Giussani na importância da primazia da sociedade sobre o Estado pois somente através da livre associação das pessoas em organizações da chamada sociedade civil é possível desenvolver a dignidade do homem.

Ele é taxativo neste sentido e nos diz: “É no primado da sociedade diante do Estado que se preserva a cultura da responsabilidade. Primado da sociedade, portanto: como tecido criado por relações dinâmicas entre movimentos que, criando obras e agregações, constituem comunidades intermediárias, e assim exprimem a liberdade das pessoas potencializadas pela forma associativa”.

Neste sentido, obras sociais de cunho assistencial e educativo, empreendimentos empresariais que se organizam para atender às necessidades humanas, deveriam contar com o apoio do Estado apenas em caráter subsidiário, facilitando a livre associação de pessoas e não cooptando tais organizações pelo aparelho estatal como parece acontecer hoje em nossa realidade. Sob meu ponto de vista, boa parte das chamadas Organizações Não Governamentais no Brasil foram ilegitimamente cooptadas pelo Estado através do fornecimento de verbas polpudas ou através de prestação de serviços muitas vezes de maneira fraudulenta, atuando desta forma como linha auxiliar do aparelho estatal e não como defesa de interesses da sociedade civil.

Nesta concepção de política o que conta, em última análise, é a manutenção de grupos sociais no poder que buscam se perpetuar para poderem realizar seus objetivos partidários nem sempre em linha com as chamadas comunidades intermediárias, como nos ensina dom Giussani. Trata-se de um Estado prepotente.

Assim dom Giussani finaliza sua palestra em Assago: “Deste modo, a política deve optar se favorece a sociedade exclusivamente como instrumento, manipulação de um Estado ou poder, ou então, se favorece um Estado que seja verdadeiramente leigo, isto é, a serviço da vida social, conforme o conceito tomista de bem comum…”.

Outra questão importante e que merece ser debatida tem a ver com a democracia, categoria tão usada (e vulgarizada) ultimamente mas que poucos tem noção de seu verdadeiro significado. Em um texto cujo título é Afirmar o outro por ele existir, dom Giussani enfrenta esta questão.

Ele afirma, de início: “O ideal da democracia surge normalmente como exigência de relações exatas, justas, entre pessoas e grupos. Mais especificamente, o ponto de partida de uma verdadeira democracia é a exigência natural, humana, de que a convivência ajude a afirmar a pessoa, de que as relações sociais não atrapalhem o crescimento da personalidade”.

Algumas observações surgem a partir deste texto. Primeiramente é visível a preocupação de dom Giussani com as relações entre pessoas e grupos que devem ser justas não admitindo relações assimétricas, de desigualdade. Em segundo lugar, a democracia deve contribuir para o desenvolvimento pessoal, para o fortalecimento daquilo que podemos chamar de nosso eu. Uma democracia que simplesmente transforme a pessoa em massa, que dificulte o protagonismo de cada um de nós não contribui para uma convivência saudável, rica, plena de liberdade.

O respeito ao outro, a afirmação do outro com seus valores e sua liberdade são características que devem ser preservadas por uma democracia que se acredite autêntica: “Poder-se-ia chamar ‘diálogo’ este modo de relacionamento entre os homens que a democracia tende a instaurar”, diz-nos dom Giussani

Para ele, a democracia deve pautar suas atividades por uma intensa convivência entre pessoas e grupos, por um pluralismo que não seja relativista como querem alguns autores ditos ‘modernos’, uma convivência que afirme o homem ‘por ele existir’.

Ou, como afirma dom Giussani: “Para nossa mentalidade cristã, democracia é convivência, isto é, reconhecer que minha vida implica a existência do outro, e o instrumento dessa convivência é o diálogo. Mas o dialogar é propor ao outro aquilo que eu vivo, e dar atenção àquilo que o outro vive, por uma estima pela sua humanidade e por um amor ao outro que não implica em absoluto uma dúvida de mim, que não implica absolutamente o comprometimento daquilo que eu sou”.

E para finalizar, permito-me citar um autor muito caro a dom Giussani, T.S. Eliot que nos versos proféticos de A Rocha , escritos em 1934, nos aponta:

“Ermo e vazio. Ermo e vazio. E trevas sobre a face do abismo

A Igreja deserdou a humanidade ou foi por ela deserdada?

Quando a Igreja não for mais considerada, ou sequer contestada, e houverem os homens esquecido

Todos os deuses, exceto a Usura, a Luxúria e o Poder”.

Posted in Uncategorized | Leave a comment

VERDADE E POLÍTICA: UMA ANÁLISE ARENDTIANA DA COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE

Em 2013, terminei meu curso de especialização em Filosofia Contemporânea na PUC-RJ e escrevi minha monografia sobre a Comissão Nacional da Verdade. Abaixo transcrevo o resumo da monografia e, caso alguém se interesse, posso enviar a versão integral.

…………………………………………………………………………………………………………………………………………….

RESUMO

A monografia ora proposta tem como objetivo analisar a Comissão Nacional da Verdade (CNV) – seus objetivos, sua composição, seu alcance, seus efeitos políticos – procurando compreendê-la a partir de uma perspectiva que considere as relações entre verdade e política, mentira e poder, verdade racional e verdade factual, conforme a discussão suscitada por Hannah Arendt em alguns textos políticos. Não é nosso propósito analisar as conclusões e resultados da CNV tendo em vista que o seu relatório final será apresentado à sociedade brasileira durante o ano de 2014. Também não faz parte do escopo desta monografia examinar as Comissões Estaduais da Verdade, algumas com funcionamento anterior à CNV e outras criadas a partir dela.
A análise que pretendemos desenvolver enfocará a implanta-ção da CNV no atual contexto político brasileiro e examinará os debates que cercaram seu lançamento bem como as polêmicas e controvérsias que emergiram (e que continuam a emergir) na sociedade brasileira entre as várias tendências e segmentos políticos que se manifestaram no espaço público. A CNV se apresenta no contexto político brasileiro como uma possibilidade de reestabelecer a verdade histórica a respeito dos crimes políticos cometidos durante o período compreendido entre 1946 e 1988.

Posted in Uncategorized | Leave a comment

A Sociedade contra o Estado

Publico aqui a Introdução do meu trabalho de conclusão da disciplina Pensamento Político Contemporâneo, cursada como parte do Curso de Especialização em Filosofia Contemporânea da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.  O objetivo do referido trabalho é o de analisar alguns aspectos da obra do antropólogo Pierre Clastres, especialmente a questão das relações entre Sociedade e Estado em comunidades ‘primitivas’. Aos que se interessarem pelo trabalho integral, peço a gentileza de solicitarem que o enviarei com o máximo prazer.

============================================================================

Introdução 

A questão do Estado para o pensamento político, moderno ou contemporâneo, sempre se constituiu como uma das questões mais relevantes seja como realidade institucional seja como categoria de análise da ciência política.

Sua relevância é tal que se torna difícil imaginar atualmente no Ocidente uma sociedade que prescinda do Estado e de seu aparato institucional tantas são as funções e atividades que esta entidade desempenha no mundo em que vivemos. Muitas das polêmicas, falsas ou verdadeiras, que atualmente grassam no cenário político-ideológico contemporâneo têm a ver com questões relacionadas ao tamanho do Estado na sociedade, seu papel no desenvolvimento econômico, a natureza de suas atribuições, o grau de eficácia de suas operações, etc. Tanto à esquerda quanto à direita do espectro político, debatem-se liberais e socialistas sobre os temas da estatização e da privatização.

A escolha do tema deste trabalho deveu-se à necessidade de entender melhor a perspectiva de um dos mais instigantes e iconoclastas antropólogos que teve o mérito de colocar a questão do Estado no centro de suas preocupações intelectuais, lançando os alicerces de uma antropologia política voltada para o exame das relações de poder nas sociedades primitivas, Pierre Clastres (1934-1977). Desta forma, privilegiei este tema com o intuito de conhecer o pensamento sui generis deste antropólogo que ousou desafiar o cânone acadêmico ao propor o exame de questões que usualmente fogem do âmbito da antropologia clássica.

Cabe finalmente dizer que a análise proposta por Pierre Clastres sobre as sociedades primitivas, sociedades sem Estado, tem muito a ver com as questões atuais sobre esta instituição: “Ou melhor, o destino dos Estados atuais, sob os quais vivemos, é ser cada vez mais estatal […] Em todas as sociedades ocidentais, a máquina do Estado […] vai ser cada vez mais autoritária […] com a concordância profunda da maioria silenciosa; esta última estando igualmente distribuída à esquerda e à direita”. [1]

Minha pretensão neste trabalho é bastante modesta e limita-se a examinar e compreender as principais categorias e conceitos utilizados por Pierre Clastres na análise do fenômeno político nas sociedades primitivas, tomando como ponto de partida uma de suas principais obras A Sociedade contra o Estado.


[1] CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado – Pesquisas de Antropologia Política. São Paulo, Cosac Naify, 1ª. Edição, 2012, p.272.

 

Posted in Uncategorized | Leave a comment