Conclui há pouco trabalho de conclusão da disciplina Ética e Sociedade Contemporânea do curso de Filosofia Contemporânea da PUC-RJ. Abaixo, deixo disponível a Introdução e caso alguém tenha interesse em ler o referido trabalho, posso enviá-lo assim que receber a avaliação final.
Introdução
É surpreendente o número de escritos – livros, artigos, revistas, resenhas, lançamentos, etc. – que tem sido divulgados a respeito de Hannah Arendt nos anos recentes. Apenas no ano passado seus livros Sobre a Revolução e A Condição Humana foram relançados no Brasil; a revista O que nos faz pensar, do Departamento de Filosofia da PUC-RJ, publicou um número especial em sua homenagem; Eduardo Jardim lançou seu (aguardado) livro solo Hannah Arendt: Pensadora da Crise e de um Novo Início; o blog Hannah Arendt- Brasil colocou 10 posts no ar apenas em Janeiro deste ano contra uma média de 2 a 3 posts mensais em 2011; e teve início no Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ um grupo de pesquisas com o objetivo de discutir o tema Comunicação e Política. Isto para ficarmos apenas restritos ao cenário brasileiro!
Recentemente André Duarte[1], ao comentar a recepção de Hannah Arendt no Brasil, nos lembrou que, embora ela tivesse tido um reconhecimento público internacional com suas obras Origens do Totalitarismo e A Condição Humana, houve certa demora do meio acadêmico brasileiro para promover debates e discussões sobre sua obra. Esta ‘fama póstuma’ de Hannah Arendt talvez deva ser creditada ao fato de que, tal como o pensamento de Walter Benjamin, seu pensamento nunca esteve ‘à venda’.
Ele ressaltou também que Celso Lafer, no início dos anos 80, fez um trabalho excepcional de divulgação da obra de Hannah Arendt no Brasil, juntamente com Eduardo Jardim que desenvolveu na PUC-RJ um trabalho de fôlego no sentido de aprofundar os estudos sobre esta importante pensadora alemã.
Procurando explicar esta paradoxal situação, André Duarte salientou que o cenário do ambiente universitário brasileiro até 1989 era relativamente rígido com a ‘bandeira epistemológica’ fincada em solo marxista, rejeitando qualquer autor (a) que expressasse um pensamento diferente do legado de Karl Marx. Com a derrubada do Muro de Berlim naquele ano, as fronteiras entre direita e esquerda foram esboroadas e o pensamento marxista tradicional entrou em crise. A partir deste momento, abriu-se um campo fértil para autores como Hannah Arendt.
O recente movimento popular da Praça de Tahir no Egito, que completou um ano neste mês, somados aos gritos do indignados na Espanha, aos protestos do Occupy Wall Street e outros locais pelo resto do mundo, configuram um cenário sócio-político onde os conceitos tradicionais de representação política, de democracia representativa, de participação popular, de eleições pelo voto, etc. devem ser completamente (re)discutidos e (re)vistos sob pena de se tornarem obsoletos.
É certo que nenhuma destas situações pode ser comparadas ao totalitarismo, fenômeno que emergiu no início do século XX e que teve consequências humanas e humanitárias catastróficas, com milhões de vidas ceifadas, tanto na sua vertente nazista quanto na sua vertente comunista.
A similaridade entre estes dois contextos reside no fato de que eles exigem abordagens diferentes e inovadoras para explicar a emergência de massas humanas que expõem sua insatisfação com os rumos da política e com as atitudes e comportamentos dos políticos profissionais. Ditaduras políticas assentadas durante anos e anos a fio no Egito, no Iêmen, na Síria, na Líbia, etc. foram e estão sendo derrubadas como frágeis castelos de areia. Governos europeus não mais conseguem conter os movimentos de rebeldia de jovens que procuram canais novos de manifestação de sua insatisfação e que vão sendo gradativamente substituídos por novos governantes na Espanha, na Itália, na Grécia, etc., sem conseguir solucionar os impasses hoje vividos por estes países.
Em resumo, Davos pede um novo capitalismo e em Porto Alegre o Fórum Social Mundial, seção Brasil, discute qual é o caráter do novo mundo possível!
É neste cenário que o pensamento de Hannah Arendt se valoriza, aponta novos caminhos, propõe senão uma solução concreta mas a possibilidade de um novo início, de um começo original que permita o debate e a discussão num espaço público iluminado por idéias que fertilizem o ‘pensamento sem corrimão’, como quer Hannah Arendt.
O presente trabalho está dividido em três partes. Na primeira, registramos os principais momentos da vida de Hannah Arendt através de uma sumária biografia pois é sabido que não se pode entender perfeitamente a obra desta pensadora sem conhecer sua vida pessoal; muitos dos seus escritos são respostas às suas experiências cotidianas seja na Europa seja nos Estados Unidos para onde migrou no início da década de 40. A segunda parte é um estudo sobre o conceito de ação, categoria central em seu pensamento político e a grande contribuição de Hannah Arendt para a Filosofia Política. E finalmente, nas Conclusões, um rápido resumo de seu pensamento para se entender o cenário contemporâneo e a sua importância como ‘pensadora da crise e de um novo início’
[1] André Duarte – Palestra no lançamento da revista O que nos faz pensar, revista do Depto. De Filosofia da PUC-RJ, no. 29


